
«(…)Mas, em boa verdade, somos mais altruístas do que egoístas. Mais nos interessa o alheio do que o próprio. Eis o erro.
Devemos, antes de tudo, amar a nossa pessoa individual, vendo já nela a sua descendência. O verdadeiro próximo somos nós. O outro próximo é uma ilusão, origem piedosa de muitos males.
Deixar de beber é preferível a pregar contra o alcoolismo. Eu sou capaz de perder uma noite, com o cigarro na boca, a redigir um discurso contra o tabaco. Sou altruísta. Desprezo o mal que me causa o cigarro, mas incomoda-me o prejuízo que ele faz ao meu vizinho. E nem sequer me lembro das vítimas futuras dos meus vícios!
Sim: em nós é que devemos amar verdadeiramente o próximo. Se todos os homens tivessem amado a si próprios, em vez de terem amado os outros, creio que a Humanidade seria hoje mais feliz.
Graças ao terrível altruísmo de nossos avós, o povo português sofre dessa terrível doença – a fealdade, que é uma síntese de todas as doenças principais: a mestiçagem e a penúria, a sífilis e o alcoolismo.
Nas populações rurais encontram-se vários tipos de fealdade, degenerências provocadas pela miséria; aquela terrível fealdade que, em certas fisionomias de camponeses, principalmente nas mulheres envelhecidas, representa a fome plasticizada em figura humana. É mais trágica e menos odiosa que a urbana, denunciando os vícios e as taras negras que a geraram».
Teixeira de Pascoaes in « Arte de Ser Português«